13 de fev de 2009

Carta à maioria - texto de Leo Nogueira

Venho, por esta, pedir desculpas à maioria. Desculpas por meu egoísmo, meu ensimesmamento (ou seria meu "enmimesmamento"?), minha ranzinzice, meu olho no umbigo. Quero pedir perdão a todos que pertençam à maioria a quem porventura ofendi e àqueles a quem esquecerei de citar.

Peço desculpas de joelhos a todos aqueles que berram em todos os lugares públicos com seus aparelhos celulares. Oras! Se são lugares públicos, eles têm mais é que berrar mesmo, afinal, o que é público pode até ser privada, mas não é privado. Perdão, falantes… e alto-falantes! Eu, que sempre me irritei com suas vozes reverberando a falta de assunto, justamente hoje (HOJE!) me peguei pensando: será que não sou eu que os irrito com meu silêncio? Viro à esquerda, tem um falando ao celular, viro à direita, tem outro, à frente, atrás, embaixo, acima, estão todos falando ao celular, menos eu! Afinal, quem eu penso que sou pra não falar também ao celular? Mais de uma vez, tentando compenetrar-me em algum livro em assentos de coletivos, percebi o olhar de esguelha de algum falante olhando-me como se eu fosse um ET. Como uma espécie de "psiu" às avessas! E, juntando os fatos, percebi, roxo de vergonha, que EU que atrapalho!

Peço perdão a todos os motoristas que cruzam as vias (públicas) caridosamente compartilhando seu gosto musical com os demais, sejam motoristas, passageiros, ou mesmo pedestres, nesses dias de tanto trânsito. E alguns ainda fazem a gentileza de cantar em cima da gravação! Com suas potentes caixas de som fazendo tremer a Terra! Oh, bons samaritanos! Agradeço-lhes por mostrarem com isso que estamos vivos! A vocês e aos vizinhos, com seus cães cantores, seus papagaios poliglotas, suas TVs que nos comunicam em alto e bom som mais um gol brasileiro, meu povo! E eu, que faço? Quando muito, alardeio em voz baixa minhas verdades! Ainda bem que sou minoria, ou o mundo seria um perfeito cemitério!

Àqueles bombados, de corpos exuberantes, cabelos cuidadosamente desgrenhados, barbas milimetricamente aparadas, bípedes de másculos biceps, oh, meus irmãos! Perdão! O que posso dizer em meu favor pra que não me castiguem pelo ato de botar meu corpo na rua? Esse corpo fora de esquadro, esse abominável abdômen, essa vista astigmática escondida atrás de tortos aros, esses cabelos ralos escondendo ideias conspiratórias concebidas por uma massa muito mais que cinzenta, diria mesmo gris. Oh, como ouso? Eu, que não frequento academia, no máximo incomodo ácaros em sebos. Quiçá nem o inferno me aceite, já que os garçons o fazem com comiseração, sem entender porque este miserável consegue tomar cervejas em bares lendo o jornal. E nem é o caderno de esportes!

Por falar em garçons, peço-lhes desculpas pelas vezes que disse "al dente" pra fazê-los de idiotas e pelas outras em que disse "au dênti", por achá-los estúdpidos. E pelo milhão de vezes que pedi que abaixassem o volume da televisão. Ser monstruoso, não vês que todos saem de casa pra ver TV em lugares públicos por puro senso de coletividade, da mesma forma que nossos pais iam às igrejas? Por que não nasceste surdo se não estás preparado pra ouvir o que as TVs, filósofos modernos, têm a dizer? Por isso andas pelas ruas como um paspalho, fora de moda. Notaste que és o único em quilômetros que não expõe as cuecas? E ainda te ofendes quando lindas jovens passeiam na garoa com suas carnes sobrando pelas laterais de calças mal-ajambradas, pulando dentro delas pra nelas se fazerem caber! Mal-ajambrado és tu, patife! Que usas meias que ainda vão até os joelhos! Queres falar de moda?

Lástima! Não vejo o big brother, assim não tenho assunto nas mesas de bares, nos horários de almoço ao lado de companheiros de escritório, nas filas de bancos! De que mundo sou, afinal? Compondo em língua morta, não tirando os pés do chão… Oh, poço de preconceitos! Reparas nas mazelas humanas e não vês que és tu quem está sobrando nas festas. Enquanto todos riem sem motivo, ou pelo simples motivo de estarem vivos, tu permaneces taciturno, por mil motivos, ostentando motivos para os quais não tens a solução. Ostentas motivos como outros ostentam pulseiras, correntes, piercings. Tu não tens coragem de profanar teu corpo com perfurações ou mesmo tatuagens, mas profanas tua alma. Se é que tens alma, besta! Tu que ainda choras só… Tu, que depois que leste Kafka, literatura inútil, te vês perseguido em qualquer estabelecimento, mesmo na cozinha. Com a diferença de que, se não és personagem principal, ao menos és culpado!

Perdão! Perdão! Perdão! Três vezes! Àqueles que querem entrar nos vagões antes que eu saia e que, quando estão dentro, querem sair antes que eu entre. Vocês têm razão! Vocês têm que entrar e sair primeiro, pelo simples motivo de que são a maioria! E a maioria pode tudo! Se eu fizesse parte da maioria não precisaria me fingir de educado, simplesmente entraria e sairia a meu bel-prazer, sem maiores crises de consciência. E, na escada rolante, ainda pararia no meio. Afinal, quem quer andar na escada rolante? A minoria. E eu, que sou minoria entre a minoria.

Irmãos, meus irmãos… Animem-se! A maioria, que durante milênios foi minoria, agora está prestes a ser não apenas maioria (pois isso já o é), mas maioria absoluta! Esmagadora! A minoria extingue-se dia a dia. Os reclamões, categoria à qual pertenço, os que acham desculpas pra não subirem em seus cargos. Enquanto isso, a maioria está pisando em cabeças pra subir, ao mesmo tempo em que as cabeças pisadas sempre encontram cabeças outras a serem, também por sua vez, pisadas, e assim sucessivamente, até que sobrem apenas cabeças de animais, estes sim irracionais, cujas cabeças merecem ser pisadas. E não porque são cruéis, apenas porque é assim que é. E eu, que não piso senão a minha própria cabeça, subo pra baixo. Talvez não pise minha cabeça, e sim cabeceie meus pés, o que dá no mesmo. Como numa letra (momento de autocitação), "pra quem está no subsolo, o céu é chão".

Já dizia a palavra que os bem-aventurados herdariam a Terra. Está por chegar o dia, o juízo final, o sinal dos tempos, o após-calypso. Nesse dia todo o silêncio será extinto, e, com ele, a minoria. Nesse dia um novo decreto fará saber (aos que ainda souberem ler), que será Carnaval todos os dias, que o direito de um continuará pra além das fronteiras do direito do outro, assim sendo, não haverá mais fronteiras! Ou direitos, já que todos passearão certos por vias tortas. Assim será o paraíso.

Infelizmente, nesse dia, eu, que pertenço à minoria, não estarei aqui pra dar vivas.
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